25 de out. de 2012

TELEFONEMA INESPERADO



Laurindo Matoso sentia-se no auge da exaltação doutrinária.

Iniciava os comentários de uma trintena de noites, que seriam consagradas a estudos sobre o dinheiro à face do Cristianismo, e exprimia-se, severo.
Lembrava a história dos grandes sovinas, relacionava os desastres morais surgidos da finança inconveniente...

¯ O ouro, meus irmãos ¯ pontificava, solene ¯, é o pai de quase todas as calamidades da Terra. Abre a vala da prostituição, gera a delinqüência, incentiva a loucura e corrompe o caráter... Onde apareça a miséria, procurai, por perto, a fortuna. É preciso temer a posse e
extinguir a avareza. O dinheiro destrói o amor e a felicidade, o dinheiro enche cadeias e manicômios...



A assembléia escutava, escutava...

Entretanto, o exame do assunto permitia o debate fraterno e, porque muitos companheiros de raciocínio acordado não podiam esposar plenamente as teses ouvidas, Matoso viu-se para logo encurralado em perguntas diretas.

¯ Mas você não considera o dinheiro como recurso da vida? ¯ ponderava Montes, o irmão mais velho da turma. ¯ A direção é que vale. Água governada faz a represa, a represa sustenta a usina, a usina cria trabalho e o trabalho é a felicidade de muita gente.

¯ Ora, ora! ¯ gritava Laurindo, esmurrando a mesa ¯ lá vem você, o filósofo espírita.

¯ Como assim? ¯ sorriu o ancião prestimoso.

E Laurindo:

¯ Qualquer dinheiro desnecessário a quem o possua é porta aberta à demência.

¯ Ouça, matoso ¯ interferiu Dona Clélia ¯, imagine-se você mesmo, num catre de provação, recolhendo o amparo amoedado de algum amigo. É impossível que você amaldiçoe o auxílio espontâneo...

¯ A assistência é tarefa para Governos ¯ tergiversou o orador.

¯ Sim ¯ concordou a interlocutora ¯, mas, por vezes, a representação dos Governos, embora respeitável, custa muito a chegar.

¯ E o dinheiro generoso que pode ajudar nos casos de família? ¯ acentuou Dona Zulma. ¯ naturalmente, o senhor não tem, como nos acontece, um filho acusado por um desfalque no Banco. A quantia que nos foi emprestada, para salvar-lhe o nome, funcionou como bênção.

¯ Nada disso ¯ protestou Laurindo, excitado. ¯ Não houvesse o dinheiro e não surgiriam viciações. A paga dourada é que faz os defraudadores. Estudei a questão quanto pude. Em todas as civilizações, o dinheiro é responsável por mais da metade dos crimes...

A preleção seguia animada, com apartes ardentes, quando o telefone chamou Laurindo em pessoa.

O aviso procedia do recinto doméstico e, por isso, o monitor não conseguiu esquivar-se.

Ao telefone processou-se o seguinte diálogo:

¯ É você, Laurindo?

¯ Sim, sim.

¯ Olhe ¯ informava a esposa distante ¯, um portador chegou agora...

¯ Que há? ¯ inquiriu Matoso, austero e preocupado.

¯ Meu avô morreu e deixou-nos todos os bens... A fazenda, os depósitos, as apólices... Venha!... Precisamos combinar tudo. É muito problema por decidir, mas creio que a herança nos libertará de todo cuidado material para o resto da vida...

¯ Bem, filha ¯ e a voz do Matoso adocicou-se, de inesperado ¯, vou já...

Logo após, algo atarantado, pediu desculpas, alegando que precisava sair.

¯ E o final da palestra? ¯ disse Osvaldo Moura, um amigo que acompanhava as instruções, empunhando notas.

¯ Temos o mês inteiro para discutir o temário ¯ explicou o orador. ¯ O dinheiro é o flagelo dos homens. É imperioso guerreá-lo sem tréguas. Continuarei amanhã...

Os dias se passaram e, por mais solicitado ao regresso, Laurindo nunca mais voltou...
 


FRANCICO CÂNDIDO XAVIER
CONTOS DESTA
E DOUTRA VIDA
PELO ESPÍRITO IRMÃO X

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Pesquise Cursos On-line Aqui