12 de dez. de 2012

VERDUGO E VÍTIMA


O rio transbordava.
Aqui e ali, na crista espumosa da corrente pesada, boiavam animais mortos ou deslizavam
toras e ramarias.
Vazantes em torno davam expansão ao crescente lençol de massa barrenta.
Famílias inteiras abandonavam casebres, sob a chuva, carregando aves espantadiças,
quando não estivessem puxando algum cavalo magro.
Quirino, o jovem barqueiro, que vinte e seis anos de sol no sertão haviam enrijado de todo,
ruminava plano sinistro.
Não longe, em casinhola fortificada, vivia Licurgo, conhecido usuário das redondezas.
Todos o sabiam proprietário de pequena fortuna a que montava guarda vigilante.

Ninguém, no entanto, poderia avaliar-lhe a extensão, porque, sozinho envelhecera e sozinho
atendia às próprias necessidades.
- “O velho – dizia Quirino de si para consigo – será atingido na certa. É a primeira vez que
surge uma cheia como esta. Agarrado aos próprios haveres, será levado de roldão... E se as
águas devem acabar com tudo, porque não me beneficiar? O homem já passou dos
setenta... Morrerá a qualquer hora. Se não for hoje, será amanhã, depois de amanhã... E o
dinheiro guardado? Não poderia servir para mim, que estou moço e com pleno direito ao
futuro?...”
O aguaceiro caía sempre, na tarde fria.
O rapaz, hesitante, bateu à porta da choupana molhada.
- “Seu” Licurgo! “Seu” Licurgo!...
E, ante o rosto assombrado do velhinho que assomara à janela, informou:
- Se o senhor não quer morrer, não demore. Mais um pouco de tempo e as águas chegarão.
Todos os vizinhos já se foram...
Não, não... – resmungou o proprietário -, moro aqui há muitos anos. Tenho confiança em
Deus e no rio... Não sairei.
- Venho fazer-lhe um favor...
- Agradeço, mas não sairei.
Tomado de criminoso impulso, o barqueiro empurrou a porta mal fechada e avançou sobre o
velho, que procurou em vão reagir.
- Não me mate assassino!
A voz rouquenha, contudo, silenciou nos dedos robustos do jovem.
Quirino largou para um lado o corpo amolecido, como traste inútil, arrebatou pequeno molho
de chaves do grande cinto e, em seguida, varejou todos os escaninhos...
Gavetas abertas mostravam cédulas mofadas, moedas antigas e diamantes, sobretudo
diamantes.
Enceguecido de ambição, o moço recolhe quanto acha.
A noite chuvosa descerra completa...
Quirino toma os despojos da vítima num cobertor e, em minutos breves, o cadáver mergulha
no rio.
Logo após, volta à casa despovoada, recompõe o ambiente e afasta-se, enfim, carregando a
fortuna.
Passado algum tempo, o homicida não vê que uma sombra se lhe esgueira à retaguarda.
É o Espírito de Licurgo, que acompanha o tesouro.
Pressionado pelo remorso, o barqueiro abandona a região e instala-se em grande cidade,
com pequena casa comercial, e casa-se, procurando esquecer o próprio arrependimento,
mas recebe o velho Licurgo, reencarnado, por seu primeiro filho...


FRANCICO CÂNDIDO XAVIER
CONTOS DESTA
E DOUTRA VIDA
PELO ESPÍRITO IRMÃO X

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